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Volta e meia a gente encontra alguém que foi alfabetizado, mas não sabe ler.
Quer dizer, até domina a técnica de juntar as sílabas e é capaz de distinguir
no vidro dianteiro o itinerário de um ônibus. Mas passa longe de livro,
revista, material impresso em geral. Gente que diz que não curte ler.

Esquisito mesmo. Sei lá, nesses casos, sempre acho que é como se a pessoa
estivesse dizendo que não curte namorar. Talvez nunca tenha tido a chance
de descobrir como é gostoso. Nem nunca tenha parado para pensar que, se
teve alguma experiência desastrosa em um namoro (ou em uma leitura), isso
não quer dizer que todas vão ser assim. É só trocar de namorado ou
namorada. Ou de livro. De repente, pode descobrir delícias que nem
imaginava, gostosuras fantásticas, prazeres incríveis. Ninguém devia ser
obrigado a namorar quem não quer. Ou ler o que não tem vontade. E todo
mundo devia ter a oportunidade de experimentar um bocado nessa área, até
descobrir qual é a sua.

Durante 18 anos, eu tive uma livraria infantil. De vez em quando, chegavam
uns pais ou avós com a mesma queixa: "O Joãozinho não gosta de ler, o que
é que eu faço?" Como eu acho que o ser humano é curioso por natureza e
qualquer pessoa alfabetizada fica doida pra saber o segredo que tem dentro
de um livro (desde que ninguém esteja tentando lhe impingir essa leitura
feito remédio amargo pela goela abaixo), não acredito mesmo nessa história
de criança não
gostar de ler. Então, o que eu dizia naqueles casos não variava muito.

A primeira coisa era algo como "pára de encher o saco do Joãozinho com
essa história de que ele tem que ler". Geralmente, em termos mais delicados:
"Por que você não experimenta aliviar a pressão em cima dele, e passar uns
seis meses sem dar conselhos de leitura?"

O passo seguinte era uma sugestão: "Experimente deixar um livro como este
ao alcance do Joãozinho, num lugar onde ele possa ler escondido, sem
parecer que está fazendo a sua vontade. No banheiro, por exemplo." E o que
eu chamava de um livro como este, já na minha mão estendida em oferta,
podia ser um exemplar de O Menino Maluquinho, do Ziraldo, ou do
Marcelo, Marmelo, Martelo, da Ruth Rocha, ou de O Gênio do Crime, do
João Carlos Marinho. Havia vários outros títulos que também serviam. Mas o
fato é que, em 18 anos de experiência, NUNCA, nem uma única vez,
apareceu depois um pai reclamando que aquela sugestão não tinha dado
certo. Pelo contrário, incontáveis vezes o encontro seguinte já incluía um
Joãozinho entusiasmado, comentando o livro lido e disposto a fazer novas descobertas.

Para adolescentes e jovens, a coisa é um pouco mais
complicada. Não porque não haja livro bom assim como os que citei. Pelo
contrário, tem de montão. Eu seria capaz de encher páginas e páginas só
dando sugestões e comentando cada uma delas. A quantidade chega até a
atrapalhar a escolha, não é esse o problema. Mas aí já entram em cena muitas
outras variáveis.

O fôlego de leitura do sujeito, por exemplo. Igualzinho ao que acontece nos
esportes. Como quem sabe que não vai agüentar jogar noventa minutos, e
então nem bate uma bolinha, dizendo que acha futebol um jogo idiota. Há
quem desanime só de ver o número de paginas do livro, ou o tamanho da
letra, ou o fato de não ter ilustração. Nesse caso, o cara acha que vai ficar de
língua de fora e pagar o maior mico. Não percebe que não está competindo
com ninguém.

Também não tem ninguém na arquibancada olhando sua performance. Dá
para levar o tempo que quiser para chegar ao fim do livro. Ler uma página
por dia, por exemplo, se não quiser ir mais depressa. Num livro como este
aqui, dá pra fazer isso - as histórias são curtinhas.

Para outros candidatos a leitor, não é uma questão de fôlego, mas de medo de
não ter musculatura para ler. De só dar chute chocho e a bola não ir longe.

De não agüentar a força do que está escrito, não entender umas palavras, não
perceber o que o autor quer dizer e ficar se achando um burro. Se nunca usar,
o músculo pode acabar
tão atrofiado que o cara não consegue nem mastigar, fica feito um bebê, só
come papinha, sopa e sorvete. Incapaz de traçar um churrasco - para não falar
em ir ao supermercado trazer a carne, ou plantar a própria horta. Dá um
trabalho... Quando vejo essa atitude, sempre me lembro daquela frase: "Acha
que educação custa caro? Experimente só a ignorância..."

Mas, de qualquer modo, dá também para ser
solidário com quem ainda não teve chance de desenvolver sua musculatura
leitora. Tudo bem, vamos devagar. Lendo textos curtos, fáceis, divertidos,
variados, numa linguagem clara e parecida com a que a gente fala todo dia (e
toda noite, não há limites).

É só folhear este livro. Pode ser que alguma história atraia sua atenção e
mostre que, mesmo que uma ou outra palavra lhe escape, ninguém está
falando complicado.

Outra questão difícil na escolha de uma leitura de jovens e adolescentes, em
minha opinião, é que eles já são praticamente adultos. Ainda mais hoje em
dia, e no nosso país. Não têm que ficar lendo histórias de uma turminha de
garotos que só se trata por apelidinhos idiotas e inventa uma máquina do
tempo ou apura um crime, ou enfrenta o terror de múmias e mortos-vivos a
serviço de um cientista maluco, ou vive aventuras nos Mares do Sul, no Vale
dos Dinossauros, na Galáxia Superior ou no Reino do Escambau. É até uma falta de respeito com a inteligência e a capacidade dos jovens. Eles podem
rir, brincar, gostar de ter amigos e de se divertir, mas também gostam muito
de pensar e de criticar um bocado das heranças malucas que esse chamado
mundo dos adultos está deixando para eles. E muitos dos livros que esses
adultos (que muitas vezes não lêem) querem que eles leiam ficam batendo
nessa tecla da “bobajada divertida”.

Coisas que até tinham algum sentido em gerações anteriores, mas hoje
apanham de goleada de qualquer videogame - porque são um tipo de
diversão que não precisa de palavras.

E quando os livros que os adultos querem que os jovens leiam não são esses,
pior ainda: lá vem aqueles autores do século XIX... e já estamos no XXI!
Podem ser ótimos, importantes e tudo o mais - ninguém está negando isso.
Mas não são o tipo de leitura ideal para aquele primeiro namoro/leitura cheio
de delícias e gostosuras, quando o leitor ainda nem tem vinte anos.

E tem mais. Nessa idade, todo mundo gosta de procurar sua tribo. Há quem
goste de pagode, quem se amarre em música sertaneja, quem só queira saber
de rock. A turma que madruga e batalha para conciliar estudo e trabalho, o
pessoal que discute política e faz manifestação, a moçada que não está nem
aí. Se eles não se vestem igual, não freqüentam os mesmos lugares, não se
deslocam nos mesmos transportes, não curtem o mesmo tipo de música, não
falam a mesma gíria, como é que de repente a gente vai encontrar um livro
assim como O Menino Maluquinho para jovens, capaz de atingir a todos, tão
diferentes?

A sorte é que o Brasil é incrível e produz essas coisas. A nossa cultura tem
sido capaz de revelar de vez em quando uns artistas que são assim, portavozes
de todos. Tipo Chico Buarque na música. Ou um filme como Central
do Brasil, no cinema. E muitos outros.

Mais do que isso: tem sido uma permanente preocupação da arte brasileira,
desde o modernismo de 1922, procurar ao mesmo tempo inventar uma
linguagem nova e se expressar de uma maneira reconhecida por todos como
nossa, brasileira. No caso da literatura, todo escritor que surgiu desde essa
época teve que em algum momento decidir que tipo de língua ia usar para
ajudar a criar a linguagem escrita brasileira. Um português que não seja
artificial, enquadrado e certinho como impingiam os gramáticos lusitanos,
mas que também não se transforme no vale-tudo dos locutores esportivos,
tão pretensioso, ignorante e cheio de erros, tão consagrador das manias
pessoais que pode acabar levando a uma situação em que daí a algum tempo
ninguém mais se entende. Enfim, os escritores brasileiros do século XX
tiveram que enfrentar o desafio de estabelecer o português do Brasil, fiel ao
espírito do idioma que herdamos, mas atento ao que se diz de verdade pelo
país afora, em casa ou na rua. Um português correto, mas brasileiro. Para ser
um bons escritor, foi sendo necessário ter bom ouvido, ser meio músico. E,além disso, captar nossas pausas para rir. Coisa superimportante para todos nós.

Tem humorista que acha que é escritor. Nem sempre dá certo, às vezes fica
até meio patético, sem graça e sem garra, dá pena. Mas talvez ainda seja pior
o caso dos escritores metidos a engraçados. Dão mais pena ainda,
constrangem o leitor. Ainda bem que no Brasil esses casos até que são raros.

Temos é uma belíssima tradição de excelentes humoristas-escritores. Gente
que tem um texto límpido, ágil, maravilhosamente agudo e inteligente.

Autores que lêem muito, ouvem muita música, vêem muita imagem, se
metem no palco, transitam de uma arte para outra. São artistas que sabem
plasmar a linguagem para que ela lhes obedeça, autores que conhecem
profundamente o idioma, que são capazes de relacionar fatos quotidianos
com episódios históricos, carregálos de alusões culturais, revirar sua lógica
pelo avesso. Com isso, mostram seu ridículo, expõem seu absurdo... e
arrancam gargalhadas ou sorrisos à vontade. Nomes como os de Millôr
Fernandes, Ivan Lessa, Stanislaw Ponte Preta, Aldir Blanc. Nessa
companhia, Luis Fernando Verissimo está absolutamente à vontade. É um
dos grandes, numa área que, com toda certeza, e um dos pontos altos e
originais da nossa literatura.

A praia do Verissimo é o quotidiano principalmente na intimidade As
conversas entre quatro paredes, as lembranças solitárias de infâncias e
adolescências constantemente passadas a limpo, os desígnios de Deus (em
geral, mascarados sob a forma clássica das velhas anedotas sobre um grupo
de pessoas que morre e se apresenta diante de São Pedro). Mas o tema não é
o mais importante. Sobre qualquer assunto e a qualquer pretexto, o autor
revela suas obsessões, fala das mesmas coisas, preocupa-se com o social e o
ético, despreza solenemente o econômico... e encontra sempre uma maneira
nova de fazer isso, como se nunca o tivesse feito antes. As situações podem
ser quotidianas, mas os ângulos geralmente são insólitos e inesperados. Ou
então, reforçam o já esperado, mas com tão exatas pitadas de exagero que a
caricatura até parece um retrato realista pelo avesso, em que o lado cômico é
revelado em sua verdadeira grandeza e o sentido profundo aparece com
nitidez.

Para conseguir isso, Luis Fernando Verissimo conta com seu magistral
domínio da linguagem e do ritmo da narração. Tem uma admirável economia
no uso das palavras tudo é enxuto, nada sobra. No país do barroco, é quase
minimalista. Seus diálogos dão até a impressão de que saíram de uma fita
gravada. Mas é só a gente lembrar da realidade das transcrições de conversas
gravadas (cada vez mais freqüentes nas denúncias de escândalos pela
imprensa), para perceber como essa impressão é falsa. Estamos exatamente
diante daquele processo que Carlos Drummond de Andrade descreveu tão
bem, ao dizer que queria a beleza da simplicidade - mas não a beleza do que nasceu simples e sim a beleza do que ficou simples. Fruto de atenção
impiedosa, muito trabalho e aguda consciência de como cortar.

Que ninguém se engane. Pode parecer que Luis Fernando Verissimo é que
nem passarinho: abre o bico e sai cantando sem qualquer esforço, puro dom
natural. Mas em arte
isso não existe. E estamos falando de um artista da palavra. Alguém que vê a
linguagem como dizia o crítico Roland Barthes para caracterizar um escritor.

Se alguém duvida, vá direto a uma das crônicas selecionadas, como
"Palavreado". Ou "Defenestração". Mas se não quiser pensar em nada disso,
não faz mal. Relaxe e
aproveite. Curta as histórias, as piadas, o jeito de falar. Seja nos relatos de
desencontros que chamamos de Equívocos, nas historinhas com moral
escondida que batizei de Fábulas, nas divagações sobre um tema (Falando
Sérío), nas memórias (Outros Tempos), nas brincadeiras com a linguagem ou
o estilo. Sempre uma gostosura. Puro prazer. Um jardim de delícias.
Depois de ler este livro, duvido que algum jovem ainda seja capaz de dizer,
sinceramente, que não curte ler. E, para não ficar achando que só gosta deste
livro, que leia os outros do autor. Aposto que, em sua maioria, os novos
leitores vão se viciar em livro e sair procurando outros textos, de outros
autores. Com vontade de, um dia, chegar a escrever assim. Quem sabe? O
Verissimo nunca pensou que ia ser escritor quando crescesse. Seu negócio
era mesmo um bom solo de saxofone, instrumento em que ainda arrasa,
escondido. Mas com essa história de ser músico, desenvolveu tanto o ouvido
que acabou assim: hoje ele ouve (e conta pra nós) até o que pensamos,
sentimos e sonhamos em silêncio. Em qualquer idade.

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